Primeira Patente em Química

24/04/2025 17:29

A primeira patente relacionada à química foi registrada na Inglaterra em 1449 e concedida a John Utynam, reconhecendo seu conhecimento na fabricação de vitrais coloridos. Essa patente, que na época era emitida como uma carta real, foi concedida pelo rei Henrique VI e permitia a Utynam não apenas produzir vitrais, mas também ensinar essa arte. A concessão foi feita especificamente para a produção de vitrais destinados ao Eton College, instituição fundada em 1441 pelo próprio rei. A patente incluía ainda algumas regras específicas, como a exigência de que o desenvolvimento do vidro ocorresse exclusivamente em Murano — uma cidade próxima a Veneza, famosa por sua tradição na fabricação de vidro, que remonta a mais de 25 séculos.



Figura I – Carta Patente do Rei Henrique VI para John Utynam, conforme apresentada no Calendar of the Patent Rolls preservado no Public Record Office
Figura II – Tradução da Carta Patente do Rei Henrique VI para John Utynam, conforme apresentada no Calendar of the Patent Rolls preservado no Public Record Office.


Nessa época, com a popularização das patentes, a antiga República de Veneza criou um decreto dizendo que qualquer nova invenção tinha que ser comunicada à Republica, para que o inventor tivesse proteção contra cópias e para controlar o comércio crescente de vidros fabricados. Isso ajudava tanto a proteger os inventores quanto a manter o domínio de Veneza nesse setor. O vidro tornou-se cada vez mais valioso no comércio devido às suas propriedades particulares, por essa razão, muitos artistas venezianos foram atraídos a emigrar e estabelecer seu trabalho no exterior.

Cientes do sistema de patentes veneziano, os vidreiros obtinham monopólios em territórios estrangeiros graças ao seu conhecimento sobre novos processos e métodos de fabricação. No entanto, para alguns que tentaram exercer sua arte fora de Veneza, havia pena de morte. Então, mesmo estando com uma reputação muito alta, para manter o monopólio da arte do vidro, eles eram proibidos pelo governo de deixar o país. Por exemplo, na França, foi criada em 1665 uma indústria especializada para produzir os grandes espelhos do Palácio de Versalhes. Muitos artesãos do vidro foram assassinados por assassinos contratados — entre eles, dois vidreiros que haviam sido recrutados para desenvolver uma indústria de vidro plano destinada à famosa Galeria dos Espelhos em Versalhes. Após esse episódio, o rei Luís XIV fundou a Manufacture Royale des Glaces de France, que superou Veneza como principal exportadora de espelhos. Essa empresa mais tarde se tornou a mundialmente conhecida Saint-Gobain.

 

Figura 3 – Vitrais da Capela da Eton College — fundada como Kynge’s College of Our Ladye of Eton besyde Windesore.


Mas como era a produção dos vidros?


A história do vidro é longa e fascinante, misturando ciência, arte e até um pouco de acaso. Acredita-se que tenha sido descoberto por volta de 3500 a.C., na Mesopotamia, quando os trabalhadores que faziam fogueiras com areia e calcário notaram que os materiais derretiam e formavam um líquido transparente, ao esfriar, esse líquido formava um sólido colorido devido as impurezas dos materiais.

Nessa época, até 500 d.C. a produção era manual e rudimentar, o vidro era feito aquecendo areia misturada com natrão (mineral constituído de carbonato de sódio hidratado) ou cinzas vegetais. Algumas coisas foram se aprimorando, como a elaboração de moldes para recipientes, em 1500 a.C., e o desenvolvimento da técnica do sopro que permitiu a fabricação de peças mais elaboradas.

Na Idade Média, por volta de 1290 d.C., Veneza já era conhecida pela produção de vidros, mas acontecia muitos incêndios na cidade, pois a produção envolve um alto aquecimento dos materiais. Para contornar essa situação, o Doge da Republica de Veneza (como era chamado o chefe de estado) decidiu transferir a produção de vidro para a Ilha de Murano. Até os dias de hoje, Murano é conhecido pela qualidade de seus vidros.

Por volta de 1300, a técnica de fabricação de vidro moldado chegou em Veneza através das Cruzadas. Nesse método, as lâminas de vidro eram produzidas derramando o vidro, ainda em forma líquida, em uma superfície plana, depois era alisado com um rolo e finalizado com o polimento da placa. Em 1450, foi criada a técnica do vidro transparente, conhecida como cristallo, atribuída a Angelo Barovier. Essa inovação foi um dos principais fatores responsáveis pela fama dos vidros venezianos. A partir dessa descoberta, tornou-se possível fabricar prismas e lentes ópticas para binóculos, óculos e outros instrumentos. Com isso, os vidreiros passaram a concentrar seus esforços na produção de vidros cada vez mais puros e transparentes.

Atualmente, a produção de vidro ainda segue os mesmos princípios básicos da antiguidade. No entanto, o aquecimento é realizado em fornos industriais que podem atingir até 1600 °C. Os materiais são cuidadosamente processados e misturados para eliminar impurezas. Após o aquecimento, o vidro, ainda em estado viscoso, é despejado em moldes ou sobre superfícies planas, onde permanece até esfriar e solidificar.

Figura IV – Linha do tempo da fabricação do vidro.


Bibliografia:

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Jornal do Vidro. (2015, maio 5).
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